Poesia Viva

Neste blog irei comentar e analizar os poemas que coloquei em www.poesiatoda.blogspot.com, e que são toda a minha produção poética realizada entre 1982 e 2002 - Alexandre Dale

2005-04-20

FASES DA LUA

Pois se a lua inspira os poetas (mentira) e a poesia nasce por inspiração (mentira) e o amor à primeira vista é uma constante de todos os dias (mentira) e tudo o mais que é mentira mas nós, piedosamente, como quem crê no Pai Natal e em duendes e fadas e trolls, decidimos que é outra coisa, que é verdade, que é coisa que brilha à luz do sol como as moedas de oiro do tesouro de um pirata que nunca existiu mas que todos nós estamos claramente a ver num baú meio enterrado no areal de uma ilha tropical que não vem em nenhum mapa...............................................................

Pois a Lua existe e tem fases e também o poeta em cena as tem, mas não me parece que uma coisa tenha a ver com a outra. Sejamos claros: se formos ver o índice de toda a poesia que aqui apresentei, teremos então a assinalar, talvez não fases, mas idades (prefiro esta definição, que se há-de fazer?), sendo que a primeira idade engloba os livros:

AMOTINAÇÃO
AS AMANTES DO CARNAVAL
ANJOS DEUSES POETAS MALDITOS
(título original: ACERCA DE ANJOS E DEUSES MALDITOS. Nota: este livro e AS AMANTES DO CARNAVAL estavam agrupados sob o título comum FRAGMENTOS DO OLHO SAGRADO)
PASSAGEM DA ESFINGE
(Título original: A ESFINGE NÃO RI)
HIENAS


A ressaca da primeira idade resume-se num único tomo, e não a tomo, só por si, como um tempo independente (embora encerre já, algures, o embrião do que se há-de seguir)

CANÇÕES FALHADAS


A segunda idade, fruto de um tempo específico antes de outro também específico, inclui dois livros:

BOM-DIA, VOU ACORDAR
MILENIUM


A terceira idade (passe-se a expressão):

POEMAS DA RECONSTRUÇÃO
SITUAÇÃO 5


A quarta idade:

DO CRÂNIO FEITO TAÇA
G SPOT
OBSERVAÇÃO DAS AVES (OURO SOBRE AZUL e CIBÉRIA)
POEMAS 2002

Esta classificação, com o que poderá ter de artificial, servir-me-á aqui, contudo, para levar a bom porto a análise dos poemas tal como me comprometi a fazê-lo. Como é lógico, começarei pela primeira idade, ou seja, pelos primeiros cinco livros.

Nota:
Quando acabei de colocar no blog o último poema indiquei que se encerrava ali a publicação do “décimo quarto e último livro”. Esta classificação, todavia, é meramente formal. Os livros, esses, definidos como tal, são/serão outros, a saber:

AMOTINAÇÃO
AS AMANTES DO CARNAVAL
ANJOS DEUSES POETAS MALDITOS
PASSAGEM DA ESFINGE
HIENAS (incluirá CANÇÕES FALHADAS)
BOM-DIA, VOU ACORDAR
MILENIUM (incluirá SITUAÇÃO 5)
POEMAS DA RECONSTRUÇÃO
DO CRÂNIO FEITO TAÇA
G SPOT
OURO SOBRE AZUL
CIBÉRIA (incluirá POEMAS 2002)

(Outra opção: CANÇÕES FALHADAS, SITUAÇÃO 5 e POEMAS 2002 serão definidos como “dispersos”, que é essa, de facto, a sua condição).

Ou seja: dê-lhe que voltas lhe der, contabilizo 12 livros, sendo que os dispersos não constituem, na verdade, um volume independente e coerente.


Também será de referir que SITUAÇÃO 5 é posterior a POEMAS DA RECONSTRUÇÃO. Coloquei-o no blog na posição que agora ocupa porque a escrita de SITUAÇÃO 5 vs. POEMAS DA RECONSTRUÇÃO é uma relação de provisoriedade v.s estabilidade, e POEMAS DA RECONSTRUÇÃO torna-se, nessa posição, o livro percursor da estabilidade (diria mais: objectividade) poética que se lhe segue.

2005-04-19

A POESIA É QUE É — É QUE É O QUÊ? (5)

5. A CRÍTICA DO “PARECIDO”

Há quem só saiba ou só goste de dizer coisas como “isto parece coisa de sicrano” ou “é taliqual o estilo de fulano” e por aí adiante. Parece que este tipo de panelinhas de pressão lhes dá, de facto, muito gozo: ao fim de dez minutos de lume brando (que outro fogo poderia ser o deles?), um tipo já está convertido numa massa-mistela de tal modo irreconhecível-e-irreversível que, com um pouco de boa vontade, nunca chega a parecer-se vez alguma consigo mesmo. Será sempre um pouco de outros, será sempre o parecido com. A esses que assim vão despachando o seu tempo é que digo: tem mesmo que se parecer. Ora tomem-me de exemplo. Não sou criança-lobo. Nasci quase no centro de uma cidade cheia de gente, e mal nasci comecei logo a ser bombardeado com mil e um objectos do mundo, encheram-me de tudo, deram-me com o próprio mundo na cabeça. E é que eu quis mesmo encher-me. Enchi, enchi, enchi e nunca fui nem quis ser rã. Cresci e separei: a a partir de certa altura só se bebe o que se quer beber. Pois bem: bebi muito. Fiquei bêbado, vomitei, ressaquei, tornei a beber e aprendi então a dosear as euforias (mas quem é que liga a isso?) Andei por aí com poetas na sacola, ou entalados no sovaco em trinta ou trezentas páginas, à espera de achar aquele instante maluco em que o baloiço dá a volta ao mundo e nós podemos ser o-miúdo-mais-feliz-lá-da-nossa-rua. Nenhum deles foi capaz, todavia, de me encher na totalidade dos seus feitos. Poetas mais de mil, a alguns me agarrei com mais força, e esses é que me fizeram “parecido”. Joguei um trio de jokers com o Mendes de Carvalho (Camaleões & Altifalantes, Cantigas de Amor & Maldizer, Poemas de Ponta & Mola), homem de e com zastráspás! terríveis de brincadeira e subtilezas do género ora toma!; o Fernando Namora do Marketing (o poema, que não o livro), onde a sua morna prosa dá lugar a uma ironia longa e desengravatada, até ao subtil sorriso onde nasce o colarinho sujo e os segredos do sol nascido para todos nós; e o Almada Negreiros, todo, todo, todinho, até encher a barriga, já sem olhos que chegassem. Os mesmo olhos que espreitaram com alguma desconfiança a exuberante generosidade telúrica de Walt Whitman, e que se abriram a pouco e pouco, até à desmesura, com o Álvaro de Campos (e o Caeiro, e o Reis — ó Pessoa!...)

Aos quinze anos, estacionei vários meses no poema Partir!, do Manuel do Fonseca (até hoje...) e no José Gomes Ferreira, até o Zé Gomes me parecer o seu D. Quixote de papelão, ingénuo ou frágil, militante da dúvida, animal sagrado, que já é, mas artificial (e como ele sabia não o parecer...) Depois, fiz paciências a dois com o Herberto Helder. Com o Ruy Belo. O Rui Cinatti. O David Mourão-Ferreira. A Maria Teresa Horta. O Jorge de Sena. Como com certos tipos de música, aprendi a gostar deles. Não muito, é certo, mas alguma coisa. Com outros não tive mesmo paciência. Nunca gostei o bastante do Neruda. De Ramos Rosa. De Pedro Támen.

Quando soube de A Invenção do Amor, do Daniel Filipe, cresci dez centímetros de lucidez num só dia. Apesar desse rapazito que andava a recitar em voz alta a estrofe 83 do Canto IX de Os Lusíadas, por motivos de riso ou de snobismo, e que acabou por achar Rimbaud em segunda mão, ao mesmo tempo que ele me achava a mim, em primeira mão. Para ficar.
....................................................
Como, pois, não ser “parecido”? Para quê esse trabalho todo de bica-e-cigarro à procura das influências essenciais do novo (velho) poeta? Sigam-me na seta — o caminho é por aqui:
Não adivinham Carlos de Oliveira (Turismo) por trás da estrutura de As amantes do carnaval? — uma vénia a Alberto Pimenta (Bestiário Lusitano, A Alocução do gorila) no início exclamativo (!) de Breve Carta aos poetas mal criados? — Almada Negreiros (A Cena do Ódio) e Álvaro de Campos (Ode Marítima) em Os poetas da minha rua? — os trocadilhos do Pessoa (“não pode nunca sempre ser”) de Olaria? — Rimbaud em Fragmentos do olho sagrado (a hora de beber garrafas à Lua, o que é um anjo?, um cavalo ao luar) — José Gomes Ferreira aqui-e-ali? Ary do Santos onde? — quem em Páre escute e olhe? — ainda Almada Negreiros (Ultimatum futurista às gerações portuguesas do século XX, Direcção Única...) em Amotinação — a prosa — e aqui mesmo? — e o próprio Alexandre Dale, com “consciência acusatória raiva e sempre a abrir” em tudo o resto, e até nisto?

...e tudo o mais que conseguirem deslindar, na vossa paranóia detectivesca de inspectores do “parecido”, tarefa agora substancialmente empobrecida, para vossa e frustrada pena, mas que muito me alinda de satisfação. De mim tomai este manguito de limão e coriscos a quem não f... nem deixa f... (para bom entendedor, meia-f... bastará). Salute!

2005-04-18

A POESIA É QUE É — É QUE É O QUÊ? (4.c)

c) Roteiro de uma rota sem rotina (e o mote sou eu)

Escrevi, ou pari — porque quase pareceu um parto — Os poetas da minha rua a pensar, antes de tudo, numa meia dúzia de amigos meus. Já em 1982, como agora, partilhávamos da mesma geografia real, as povoações, os autocarros, os cinemas, os cafés. E, contudo, alhearamo-nos uns dos outros, e cada um, por sua alta recreação (pensava-se), de alguma coisa com nome de sonho. Eu encerrava-me nas quarenta e quatro paredes do meu quarto, ou em noites de charme decadente e cerveja, e eles julgavam-me agónico, pela bitola da sua própria agonia. Mas o que eu estava a fazer realmente era a hibernar, a prender muito na cama grande do meu sono inteligente, o mundo sempre e todos os países, cada um de sua vez.

Reencontrei os meus amigos iguais a velhos, a ganhar barriga e a assumir cegueira, aberrações com quarenta anos ou mais, em queda vertiginosa para o âmago do casulo assexuado da família e do ramerrão, o pai herói falhado, a mãe bico calado. Vi-os estenderem-se por todo o país com a moleza de plasticina e sebo de todo um mundo à beira da maior morte. Vi também o país, e eu, que corria, corria...

Estou a perdê-los cada vez mais. Espalho-me eu também pelo país, em contra-vaga, e perco-os, e não me importo, ou importo-me, mas isso que interessa, se vai dar tudo ao mesmo? Fiz-lhes o poema.

A minha rua foi de ladrões e tiros, putas e zangas, ciganos, facas, montras quebradas, arraiais de baile ou de pancadaria. Foi, e essa é a verdade. Mas tudo isso ficou lá atrás e, se me recordo, é só para em seguida esquecer. Esqueço imenso. Sou homem já sem rua, ou todas as ruas são como minhas.

As últimas linhas de Os poetas da minha rua são como o primeiro episódio ou a primeira fracção de uma corrida de estafetas em que, depois de esbanjar fôlego como se o tivesse em demasia (e tinha — e tenho!), eu passasse o testemunho, simultaneamente, para dois outros elementos participantes na mesma estranha corrida, o que, neste género de ateletismo, nada tem de batota. Foram eles:

Acto de fé e fingimento
Que é uma espécie de teoria em verso acerca da natureza dos pés que sustentam a vida contra o suicídio, o logro fabricado onde a esperança sobrevive, o que a fé tem de hipnose e o progresso de jogo, e o lúcido reconhecimento de tudo isso, e pur si muove!;

e

A solidão
Mundo mais íntimo e de maior aridez, apesar de todo-o-oiro, percurso dramático de um motor de descoberta e arquitectura — a condição peculiar de cada homem conhecedor de si e sedento de tudo o mais, homem-mundo, homem-condenado.

Sempre à roda, inquirindo e destilando, na pista da poesia e de toda a realidade poética, ensaiei:

O detective poético
De tão longo fôlego como Os poetas da minha rua, mas já campo experimental de outra rítimica, aglutinador de vivências directas e/ou adquiridas em segunda mão, através de múltiplos ambientes, e nascido, provavelmente, do efeito ao retardador de certo fragmento de texto escrito por alturas da minha aprendizagem no belo gesto que é o de bem segurar uma caneta, texto esse que redundou também em alguma prosa (um conto, pelo menos). Mais tarde ainda, Animais nocturnos ou Deslumbramentos tornou a socorrer-se de algumas das mesmas cenas e vivências, embora com objectivos diferentes (e uma máquina nova, com um óptimo zoom); e Breve carta aos poetas mal criados /.../, que se torna realmente importante em Como se Faz Um Poema, se bem que nunca se possa dizer ao certo como é que se fazem os poemas: um poema faz-se como quem o faz, e a conclusão é, de uma vez por todas, unânime: o poema faz-se.

No círculo da exploração autobiográfica e grande aparato de memória, tem-se:

Um poema de amor usado
Fonte onde irá beber, também mais tarde, Carne ou Plástico (de AS AMANTES DO CARNAVAL): são sempre as mesmas “negociatas” de dúvida e arrebatação, dilema e serenidade, fome e ejaculação, sensações cruzadas, cansaço e euforia:

Autocarro 42 (um videopoema)
Todo ele apoiado em imagens vivas, resultado de uma época específica e de uma constante experimentação para-teatral, realizada ao vivo e in loco, isto é, em autocarros. Quarenta e dois (42) era o número do autocarro que fazia o percurso Feijó-Almada e vice-versa;

e

Intimidade (electroencefalograma)
Fragmentado como um filme antes da montagem, e soando com o mesmo timbre de Animais nocturnos ou Deslumbramentos, que é, aliás, de uma fase posterior.

Olaria
joga a tempo inteiro o jogo do determinismo e da fatalidade. Mas o próprio poema, ensaiando em circuito paralelo um discurso de releitura e corrosão, demonstra não acreditar nesse jogo de dois bicos a que se atreve. Daí a Amotinação!

Se houver luto na minha morte não fala latim, mas diz narciso, diz orgulho, diz o “quando eu morrer” que o José Gomes Ferreira aposta mas que o Mário de Sá-Carneiro ganha. Diz não à morte. Daí que seja louco.


Viver, viver é que é.



“Break on through to the other side”.
“/…/ A 10 de Julho, o trimaran de Donald Crowhurst foi descoberto com as velas desfraldadas e sem ninguém a bordo”. /.../ “Quando estava tudo preparado para se acolher o vencedor da corrida do Golden Globe, corrida-cruzeiro de solitários à volta do mundo, organizada pelo jornal Sunday Times /.../, o ocupante do trimaran Teignmouth Electron, desaparecera...”
O resto da história, com todos os pormenores picantes e picados, vem referido no livro de Patrice Gaston, “Desaparições misteriosas”. O que aqui adianto, ainda, é que Donald Crowhurst, para além do diário de bordo, deixou /.../ “outro livro no trimaran: meditações (vinte e cinco mil palavras) escritas por Donald Crowhurst”. É desse, segundo parece, que eu não resisto à tentação de pedir “emprestados” dois fragmentos:

O motivo das perturbações que sentimos está nos seres cósmicos que jogam connosco (se conhecerem as “verdadeiras” matemáticas, ser-lhes-á fácil seguirem-me). Eles divertem-se a imaginar sistemas capazes de fabricar seres cósmicos por si próprios. Se reflectirem, não deixarão de concordar que é um jogo muito divertido. Gosto dos jogos divertidos, e compreendo perfeitamente o ponto de vista dos seres cósmicos. Mas, ao mesmo tempo, sou um homem e, quando reflicto na soma de sofrimentos que os homens têm suportado devido a este jogo dos seres cósmicos, sinto uma grande cólera contra eles. Eles dizem-me que compreendem essa dor. De resto, também sofrem à sua maneira, e aperfeiçoam um método susceptível de fabricar automaticamente seres cósmicos de modo a fazer uma segunda geração, mais apta a dominar os seus problemas do que eles próprios.
...
Tenho problemas com os seres cósmicos. Qualquer coisa não corria bem. Eu sentia que teria podido jogar o jogo melhor do que eles... No fim, fui obrigado a reconhecer que a natureza conduz estes seres cósmicos a cometer a única falta de que são capazes: o pecado de dissimulação. É uma pequena falta para um homem, mas que se torna terrível da aprte de um ser cósmico. É aí que reside a sua angústia.

Juntamente com Azar e slot-machine, “Break on /.../” já foi levado a público, de viva voz. Eu estava sentado a uma mesa, com colete preto sobre camisa não sei de que cor e chapéu na cabeça, uma garrafa com água ao lado, cigarro aceso e micro em on. A música começou: respirei fundo, para sacudir o nervosismo. Os miúdos das luzes quase se esqueceram delas: estavam tão fracas que quase não conseguia ver o poema, na folha à minha frente. Lembrava-me (ou sabia de cor) dos primeiros quatro versos. Vi a rua e o céu pela janela e comecei. Acabei por improvisar quase todo o poema. Fixei-o no papiro das pálpebras, reescrevi-o e tenho-o aqui. “Quero
passar para o outro lado”.



Ressaca — segunda-feira, geração
Foi escrito depois de uma noite de bebedeira na Festa do Avante de 1983. Achei-o muito parecido comigo próprio.

Do poeta o quê?
Nasceu num autocarro e cresceu por cafés vários.
Nota: e já me esquecia: este poema também já foi levado à rua, mas sem o “caralho” final, dada a natureza do público, que era do estilo pais e mães de família e fado é que é.



FRAGMENTOS DO OLHO SAGRADO:

1. Ontem morreram os meus deuses
Eu estava à espera. Quis comunicar contigo telepaticamente e não consegui, apesar da desesperada veemência com que implorei essa graça aos meus deuses caseiros. Senti-me de tal modo traído e frustrado que, sem pensar, puxei do revólver e comecei a disparar.

2. Agora tenho um deserto
Porque é que isto me faz lembrar Mayakovsky? Ou será que não é Mayakovsky? (Ivetuchenko?)

3. (a hora de beber garrafas à Lua)
Já foi este o título de um conto — e o conto sobreviveu: aqui e no ínicio de (um cavalo ao luar).

4. (a Lei do Leão)
Nascido a 16 de Agosto...

5. (o que é um anjo?/ (o Anjo na Cidade)
Já descrevi a sensação de ser Anjo — o onde, o como e o porquê — numa prosa cinzenta de domingo (O Anjo Ressacado) e não vale a pena estar a repetir-me. Acrescento apenas: vi um homem vestido de luz branca atravessar a cidade como o sol nos olhos dos outros passageiros, num domingo de manha. O homem usava roupa escura, e era eu.

6. Tournée
Foi nome de livro de poemas adolescente, implacavelmente rasgado. O nome ficou.
Nota: Fragmentos do Olho Sagrado foi também o título que dei a outro livro de poemas, também esse mais tarde eliminado. O “olho” sobreviveu. Mas nada é sagrado, e tudo é absurdo.



Cartago está a arder
Vi na tv um filme chamado “Pandora and the flying dutchman”, ou coisa que o valha, com Ava Gardner e James Mason. Estive acordado até às quatro horas da manhã, sempre a escrever. À minha esquerda, sobre uma porcaria qualquer do Harold Robbins, o cinzeiro foi-se enchendo de pontas de cigarros. À minha frente, o dicionário tinha-se abetto decididamente na página enciclopédica onde dominava a palavra Cartago.

...E depois acordámos
Há expressões da linguagem comum que persistem no dia-a-dia de toda a gente durante algum tempo, como se se tratasse de uma moda. Quando alguém me começava a invadir com uma dessas “histórias” cheias de fabuloso e eu-eu e eu-fiz-e-disse, eu acenava com a cabeça sim-sim, pois-pois, punha cara de fastio e interrompia assim: “...e depois acordámos”.

Mary was here
Mary foi uma rapariga que conheci em Porto Santo, em 1982. Quase me apaixonava; como se ela fosse minha irmã. De alma e coração. Mas sem nunca mais a ver, o sonho roçou as raias do pesadelo. Daí que o poema seja um exorcismo, embora o exorcismo tenha falhado. Agora já estou melhor-muito-obrigado, graças à falta de aspirina.

A fraude a Lázaro
Encontrei este poema numa carta de 1978 ou 79. A versão original não chegam de facto, a fazer-me corar.

Balada do homem morto por acaso ao serviço da democracia
Ainda não sei bem o que quis dizer, relamente, com este poema.

A cidade será o que você quiser
Concebido de cabeça numa das minhas estadias nos Açores, numa tarde frenética pela marginal de Ponta Delgada, e que se prolongou até mei oda noite, com as naturais consequências de tédio, cansaço e semi-embriaguez.

Miradouro
É a “resposta poética” a um conto que escrevi com o mesmo nome, mas, essencialmente, é o retomar de uma canção idem idem aspas aspas que não chegou a ver a luz da melodia. (O triste fim já sabido: o caixote do lixo).

Azar e slot-machine
Tu estavas lá atrás, às voltas com o chouriço e a cerveja, ou o vinho verde, já não me lembro, e eu exliquei-te o poema assim: a Madeira é uma ilha perdida num Oceano Atlântico com quatro mil metros de profundidade média. Não sei se é facil imaginar como isso é, mas o melhor mesmo será subir uma daquelas ruas do Funchal que leva à colmeia dos hotéis. Seguindo pelo caminho certo, chega-se ao Casino. Sobe-se ao primeiro andar, troca-se dinheiro por fichas e começa-se a dar ao manípulo “p’ra ver o que sai”. Se é dia de sorte, o Casino paga-nos um jantar, ou até mais qualquer coisa. Se é dia de azar, perdemos dinheiro e acabamos pela mesma rua abaixo, a dizer que é o azar, que é só azar, e o azar acaba por vir, porque ficamos predispostos para ele. É quase disso que este poema fala”.

A sensação de nada
Poema de “ressaca” de um outro, Acto de Fé ou Fingimento, mas onde o súbito reconhecimento de que tudo se equivale e de que nada vale nada não faz perder a “doce” tranquilidade de ir vivendo. Apesar disso, é um poema com estrutura de frustração.

Discreta castração
Poema urbano da traição amorosa? Aposto que não. Diz-me quem és e dir-te-ei as horas.

“Palmadinhas”
Ao fim de mais de um ano de contínuo convívio com esta gente, pus as onças aqui e os outros logo se vê.

Morfina
Poema-surpresa: só ao fim de o ter meio-escrito é que lhe entendi a intenção. Depois fui andar cinco estações nas catacumbas do metropolitano.

É Natal É Natal
Mas quem é que escapa ao Natal? O Natal é grande: entre os homens, cabe nele toda a luz e toda a trampa. (Feche a tampa e siga adiante).

D. Diniz não vai entrar no reino dos céus

“Os milagres não acontecem: fazem-se”. Mas tomam então outro nome menos cativante. É que os milagres dão menos trabalho.

AKG
Compre um microfone e faça você mesmo. Alínea G.

2005-04-15

A POESIA É QUE É — É QUE É O QUÊ? (4.b)

b) Música (ex-canções)

Ex-canções (ainda) à procura de música, fiz tantas. Nas noites de insónia ou de frenesim — e foram-no quase todas —, enchi os dedos de guitarra, os lábios de palavra, a garganta de melodia. E quando as palavras se estendiam sobre a música sem compassos falsos, como mel no pão, era certo termos festa, champanhe de brilharete, anéis nos dedos. Era a Euforia Um, parto sem dor, desejo e palco. Se acontecia haver ressaca depois, dormia-se. Ou então era já demasiado tarde, e o casamento concluía-se em divórcio. A música ia-se embora para outra encenação, as palavras ficavam. Em poemas — salvos boca a boca, incapazes de ultrapassarem os timbres discordantes, de modo a atingirem na música a sua segunda maioridade, limitados ao tamanho M de poemas somente. Mas também muito mais poemas depois da mania da música, e já sem pensar nisso, ou tangendo áspera alguma pouca pena, que a insuflação boca a boca dá vida e erecção, e reconstrói. Ora vejam. É rima inesperada, sentido duplo; é casa nova. Lugar onde a poesia aprende o que é viver (por si) só.

A solidão, um cavalo ao luar, a esfinge não ri, conversas nuas, bas-fond, mercador de sonhos, morfina, é natal é natal

2005-04-14

A POESIA É QUE É — É QUE É O QUÊ? (4.a)

a) Momentos de uma paixão e o conceito de beat — a propósito de AS AMANTES DO CARNAVAL

Nunca subi à montanha em busca do super-homem. A algum lado fui, é certo, mas muito mais levado pelo vento maestro-louco de querer saber quem era o homem. O homem, somente.

Descobri, achei ou alguma sombra me sussurrou — as visões de assalto ao quotidiano perene e, por sinais, a presença intensa mas vaga de um passado (ou de um futuro) ignoto, mas familiarizado de mim, ou como eu, ou meu, estritamente. Eu fora um homem: de Cavalo, de Navio, de Espada e Selva. Homem de sete vidas na senda da sabedoria, da plenitude, da cristalização de cada presente.

Passei bibliotecas químicas a pente fino, coligi elementos (digo: versos) por noites adentro, muitas, traduzi a paixão dessa memória de mim. Memória fabulosa e única, onde o homem se reencontra e perde, onde se reergue e desabrocha até aos confins da sua verdadeira dimensão: a pequenez lúcida do sonho grande em co(r)po etéreo, a pureza branca do actor fiel a uma só personagem onde caibam todas as máscaras, a embriagada solidão criadora dos aventureiros lançados na porta-ponto de passagem entre os mundos da terra e os mundos do sonho. Mas muito mais que isso, também. Inexplicável: apenas sensível: infra-perceptível. Cavei fundo em transe. Tomei nomes de ficção na cabeça de outros, deixei-me ir nessa correnteza dos tempos. Coisas como isto. Como um puzzle montado no ar, em que a própria gravura original tem lugares em branco, zonas de respiração, à volta dos quais cada peça se vai articulando nas outras e irradiando a sua verdade específica, numa teia de significados em que a aranha é o todo livre e resultante, mas dependente, todavia, da complexidade da teia, sem a qual não poderá existir.

Mas os próprios poemas são ou dizem quase tudo, para cá de tudo isso tão delicado e poderoso que cada poema permite ou oculta para lá de si. Tiveram a facilidade extraordinária do que se apercebe como difícil depois de feito. Enquanto a fazerem-se, absorvem-nos, cintilando. Queres saber como foi? É um conto que conto:

Primeiro, sonhei. Depois, vivi. Pus o coração todo nisso. Mais tarde, num só quarto, recuperei esse coração ainda e para sempre meu, escutei-o a pulsar segredos e mensagens criptográficas (para os meus dedos automáticos, vertendo tinta), ou música, à minha frente, dentro da minha frente. É um conto que conto:

Um clarão de reconhecimento concedeu-me o conceito. (Sei muito bem do que estou a falar.) Sei muito bem. Perguntei-me: como fazer? Essa era a pergunta. E a noite do silêncio respondeu-me: o coração dir-te-á como hás-de fazer. E o coração disse-me. E eu fiz. O coração deu-me beat, ou deu o nome de beat à sua própria pulsação: ritmo de batuque nos rins do sexo, nas ancas da dança; rumor do profundo da terra à boca de um vulcão; tudo o que nasce, cresce e morre; a luz e as trevas, o silêncio e o som, o sim e o não; o bang do universo, a música, o gráfico acima-abaixo do pensamento, as ondas do mar e as luas no céu e os passos que damos nos dias que passam. Mas o beat que, precisamente, te trás em correria louca dia a dia — não. Beat verdadeiro é essoutro que está no limiar e na origem daquele: um deus quase humano — Afrika.

Fui muito conquistado, nos meandros da memória. O coração foi pescador: lançou anzóis no poço de águas fundas onde durmo, ou descanso, e que habito, poço cheio em todas as estações; trouxe(-me) cá acima o compasso certo de cada verso, palavra a palavra, momento a momento. Terei sido eu que disse): — As palavras têm um, dez, mil rostos. São fogo, água, ar e terra. Siderais, rochosas e humanas. São rostos tentados de mil maquilhagens, jogos de paciência infinita, jogos de embuste, jogos de gozo. São as torres inacabadas da perfeição, tracejado dos olhos com cortinados, insistência desesperada do tradutor mesmo assim traidor.

Segue por aí e terás o primeiro nome. Tive. Fiz o meu carnaval quase místico, pessoalíssimo; palavra a palavra, sim. Sentei-me no vazio restante, deixei cair o conceito através dos dedos. Segurei com ganas de garra as baquetas doidas de beat. E bati.

Um dia destes subo à montanha.

2005-04-13

A POESIA É QUE É — É QUE É O QUÊ? (4)

4. GEOGRAFIAS DO VIAJANTE A MOTE
ou
DE COMO A POESIA É MAIS FÁCIL DO QUE PARECE

"Quem sou eu? A distância".
Para lá disto, que coisas poderão ser a verdade, ou a mentira? A curiosidade das pessoas é como um monstro de goelas escancarada, sempre pronto a tudo devorar. Quem é o poeta autor destes versos? O que nem sequer existe. O que matou os deuses, sem rancor nem esquecimento. Ou o que nunca os teve. O que nunca comeu o pão que o diabo amassou, o que apenas sorriu. O que espera que três quartos de sumo de laranja misturados com um quarto de vodka resulte, de facto, numa bebida formidável, melhor que o próprio sumo de laranja, melhor que a vodka por si só. Com ou sem gelo. Depois de um certo tempo de espera medido ao sol, intuitivamente. Melhor, apenas. Isso é que é um deus, esteja eu onde estiver.

Todos os autores são da raça dos homens. Mas desta vez vamos deixar os homens em paz. Principalmente este. Por mais pistas que encontrem que se encontrem dele, de todo ele, em toda a sua poesia. Fiquemos aí mesmo, e só aí: na poesia. Embora a poesia nada explique, e mal se explique a ela própria.

Os meus poemas são estes. Estão aqui, absolutamente, e quase teus. Antes disso, no entanto, que hei-de fazer com eles? Que pistas tenho eu para (me) agarrar (n)as tuas pistas? É que eu próprio, deste lado do rio — porque estou, sem dúvida, deste lado, e tu desse, e isso preocupa-me — , também nada ou pouco posso explicar. Porque não quero. Ou então deixem o homem em paz. Este jogo faz-se com e de palavras. As palavras são — valem por si mesmas. Às vezes são palavras duras, cruas ou difíceis, e lá voltamos nós aos primeiros passos do início destas páginas de prosa lisa, o que a poesia é, o que é difícil, o que toda-a-gente sabe, o que toda-a-gente diz. Mas talvez esteja nas minhas mãos dar-te uma pequena ajuda. Tens um mapa? Não o uses: não é preciso. Dou-te o meu. Observa comigo. Lê. Todo este papel escrito mostra caminhos (sem fim); nomes, lugares. Podemos viajar em papel. Nele, dele, e com ele. Empresto-te também os meus olhos: verás quase o que eu vejo, e ser-te-á mais fácil estar dentro e ao longo das minhas paisagens. Mas os julgamentos, os pensamentos, as sensações, tudo o que é ideia da Ideia e pele sobre a Pele, isso será teu.

A palavra mágica é:

VIAGEM

2005-04-12

A POESIA É QUE É — É QUE É O QUÊ? (3)

3. DE COMO SE PODE E DEVE FAZER POESIA SEM SE SER POETA

Quando eu estava a desenhar os meus poemas no papel, pensei sempre: bom, meu caro, cada um destes poemas tem de ter o truque ou a arte suficientes para que te seja possível dizê-los eficazmente, de viva voz. A tua voz. A minha voz.

...Ah, sim, já andei por aí a experimentá-los, com a afinação toda certa nas cordas vocais, em sítios pequeninos com penumbras mágicas ou luzes azuis, artificiais, quentes, flutuando sem medo. As moscas sobreviveram. E não eram moscas especiais, dessas que estão vacinadas contra tudo e contra todos: eram moscas normais, como tu e eu...

...Então é que eu pensei como era estranho estar eu a fazer poemas sem ser poeta. É que eu não sou poeta: descobri isso quando descobri a poesia. Sempre quis ir mais longe. Quis ser o próprio longe de cada poema, confundir-me no poema ao ponto de lhe dar parte da minha vida fundamental. Claro que tive de me espremer num esforço digno de Ulisses, remando quase às cegas por entre vagalhões, tempestades de sal e vozes mordidas de secura e desconsolo, vozes que chamei "de burro". Fiz poemas sem ser poeta. Até parece mentira, mas não é. Ou então vejam: mais de um milhão de poemas saíram das mãos e da cabeça de mais de mil poetas. Mas tantos números redondos para quê? A grande ausente foi, quase sempre, a própria poesia. Quem acredita que poemas, poetas e poesia têm, necessariamente, de estar relacionados, acreditará também em tudo o que se lhe queira impingir. É que o longe da poesia é o perto do mundo, e essa distância da poesia ausente, que é nada e faz de ti também um objecto da ausência, foi o fosso mais obra-prima que os poetas conseguiram cavar entre eles e o mundo. Por isso é que preferi fazer poemas em que houvesse a poesia. Mesmo se modestos. Embora incompletos. Apesar de imperfeitos. Poemas onde tu coubesses, ou que coubessem em ti. Poemas abertos, que te permitissem reescrevê-los, relê-los, revivê-los. Poemas especialmente teus, para poderes trocá-los por insónias e dançá-los dizê-los soltá-los em voz alta. Com a tua voz. Na tua vez.

Ser poeta, fazer de poeta, isso deixei-o à liberdade da boca aberta de todos esses que julgam saber o que é a poesia — e se eles gostam disso, se adoram a íntima segurança dos espertos caseiros e a felicidade eterna dos bem-aventurados, que só se sentem bem quando podem chamar nomes a todas as coisas...é deixá-los ser felizes. Assim, se me virem lá-ao-longe, poderão gritar-me: "ó poeta!", e eu acenar-lhes-ei, em resposta, sorrindo-sorrindo: eles ficarão satisfeitos, e eu também.

Contudo, não se esqueçam: poeta, não. é que nunca quis ser poeta. A mim, o que me interessa é o que eu quis ou quero ser. E o que eu quis ser foi a própria poesia.

O que eu quero ser é — Poesia.

2005-04-11

A POESIA É QUE É — É QUE É O QUÊ? (2)

2. A POESIA VIVA É COMO UM PALCO E O PALCO ESTÁ CHEIO DE VIDA

...Mas depois talvez ainda acabem por dizer que acabei por ser demasiado fácil, demasiado certinho nos meus compassos, demasiado não-sei-o-quê, que pode ser imensamente tudo, mas que não é o que dá pró génio. Bom, o génio que se lixe: as pessoas podem dizer sempre tudo o que quiserem. Por isso, eu, que sou pessoa, digo o que quero. E o que quero dizer já-já é isto: só há duas espécies de poesia — a poesia morta e a poesia viva. A poesia morta é isso mesmo: é morta. Está encarcerada em folhas sem outono de livros fechados, lacrados a inferno-de-esquecimento, solitários de orgulho técnico; a poesia morta passa o tempo a ferro, às voltas com a goma de si mesma, e não pode escapar-se dessa teia semelhante a um destino, oh não pode: ela é a prisioneira mais presa, é o criminoso e o juiz de nenhum crime visível, é o guarda-carrasco da sua bruma moribunda e angulosa, tem grades-de-silêncio-mudo por dentro e grades-de-silêncio-surdo por fora.

Houve um dia um semi-louco, três-quartos de poeta-p, dono inteiro d' uma capital absoluta d' alma, que teve o arrojo, a inconsciência ou o sonambulismo de não querer que a poesia morta estivesse morta. Assim pensado, melhor o feito: com mil cuidados (lá reza a lenda), abriu quinze centímetros de porta do livrinho-prisão onde a poesia morta estava deitada, como sempre, num catre de vã memória, ergueu a voz no microfone do silêncio húmido de uma sala tão enorme como o altar-mor de uma catedral, e começou a ler, a dizer poesia morta. Quinze centímetros não bastavam, contudo, mas isso ele não sabia. E só visto: ou será que conseguem imaginar como é que mais de trezentas moscas podem morrer de repente num barranco de sono? Pois foi isso que aconteceu. —

Ou nem de sono: de tédio. A poesia morta é isso mesmo: tédio. Há quem diga que em Portugal se morre muito de acidentes rodoviários, de doenças cárdio-vasculares, de alcoolismo, de cancro. Mas do que mais se morre, realmente, é de tédio. Há até quem diga, já farto de tédio, que tudo isto da poesia morta, muito em especial, não passa de uma tremenda conspiração organizada a nível nacional por uns certos senhores (srs.), que seriam os principais accionistas da fábrica de ideias rápidas à base de palavras sintéticas, ou um amplo movimento especulativo e/ou reinvindicativo por parte dos construtores de habitação geral. Mas boatos são boatos, e balelas são balelas — e um país com tantos boatos é um país-balela. Mas seja lá o que for, do que eu agora quero falar é da poesia viva, que a poesia morta é tão morta que se morre só de falar dela.

A poesia viva é aquela que tem a ver com a vida. O livro onde essa poesia há dura pouco: passa a sangue sem transfusão nem mistério, e o sangue pulsa e canta através das nossas veias, das minhas para as tuas e das tuas para as de todos, e vice-versa, como um animal de força, um líquido de vontade que exclui a própria necessidade de livro, de modo que só ficamos nós: tu, eu e toda a gente.

A poesia que faço, ou que fiz, chama-se poesia viva. foi feita atendendo à intenção de a dizer e de a tornar inteligível enquanto dita. É que a poesia só o é quando é partilhada. A poesia que eu faço cabe e é para caber num palco. Sabem como é um palco? Eu explico: um palco é um lugar imenso dentro da cabeça de cada um de nós, onde é e anda e passa gente por gente, gente de carne e osso perante e com gente de carne e osso, gente viva, e é nesse palco que tudo acontece. O palco é a rua, o autocarro, o café, a casa, a cidade, o fundo do mar, a neve da montanha, o espelho do lago, a febre do deserto, o odor dos campos. E num palco não há hipótese de cinema. Num palco, nunca há passado — o passado da vida é um bicho morto, e chama-se memória, ou recordação. Mas a poesia viva é tão forte que até o passado da vida fica vivo nela.

A poesia viva é que é, e a poesia viva é (que é) difícil. A poesia vive-se.

POESIA VIVA.

2005-04-08

A POESIA É QUE É — É QUE É O QUÊ? (1)

Nota: este texto estava no fim de “Amotinação”, mas procurava abarcar os primeiros cinco livros que escrevi e que dessa forma apresentei em POESIATODA.
Curioso: já há, lá mais para diante, a análise circunstancial de alguns poemas (a sua génese, ligações outros poemas, etc. — todavia, a minha proposta de análise refere-se ao momento actual, ou seja, a uma leitura dos poemas feita agora, e por isso essa outra “tradução” do que escrevi fica aqui apenas por fidelidade aos princípios enunciados, numa primeira instância, numa segunda porque não deixa estar intrinsecamente ligada aos poemas que de alguma forma abarca e, enfim, porque, como curiosidade, até eu me senti surpreendido com o que em tempos escrevi, e talvez o meu espanto seja também o vosso).


Nota de circunstância: de notar que este texto, bem como aquele intitulado AMOTINAÇÃO e o que faz o finale de OS POETAS DA MINHA RUA foram escritos em 1985, e é com a correspondente salvaguarda dessa distância no tempo que devem ser lidos e entendidos.
* * *

1. A POESIA É (QUE É) DIFÍCIL


A poesia é que é, dizem. Ou dizem que a poesia é (que é) difícil. A poesia é como uma pintura abstracta de pernas para o ar. Em Portugal, a poesia é como Portugal, é atleta de circo e anda de pernas para o ar. E a poesia em Portugal é atleta como uma pintura abstracta de pernas para o ar porque toda a gente se põe a olhar para uma pintura dessas com aquele ar pouco endinheirado de estátua meditabunda e sábia que toda-a-gente sabe muito bem, e ali ficam, infinitamente: extasiados, em silêncio-cheio de pensamentos ocos, a fazer-de-conta que estão a perceber muito de tudo aquilo, chamando-lhe Arte, e a fingir que percebem da Arte de Fingir. Com a poesia passa-se imprecisamente o mesmo. Não sei de quem é a culpa, se das pessoas se da poesia (ou dos borrões abstractos e de toda a Arte), ou até se há essa culpa, nem ist' aqui é um tribunal de consciência pública, ou tribunal, sequer. Mas o que é o real é que hoje-em-dia muitos poemas são assim: a gente lê e relê e está-se mesmo a ver que são palavras que estão ali no papel (de pernas para o ar ou não, tanto faz), mas o que essas palavras pretendem dizer, se é que pretendem ou podem dizer alguma coisa, isso só quem não lê é que sabe. É que agora o melhor de tudo é não saber ler. Agora, em Portugal, agora-mais-que-nunca, certa espécie de analfabetismo diplomado é que é o apanágio dos espertos. E quando os analfabetos, espertos como são, chegarem a velhos, o poder estará todo nas mãos deles, e nós iremos uma vez mais e sempre votar neles, ou aclamá-los, com múltiplas sensações senis de patriotismo e dever cumprido, porque o poder é para e dos velhos, e é óbvio que devemos sentir-nos muito contentes com isso. Até já quem só pergunte: ler para quê? A literatura só serve para complicar. Ver, ver é que é. Ver e ouvir. É que agora estamos no mundo do muito e do fácil, e isso aproxima-nos do mundo. Ora se a poesia é difícil, torna-se claro como cristal que a poesia não é deste mundo, ou que não cabe nele.

Mas o que é facto, quer queiram quer não, é que a poesia existe, está aí, e não só é difícil para quem (a) lê. A poesia também é difícil para quem a escreve. Não sei se conseguem ver como pode estar um ser humano como qualquer outro com cem mil palavras a embrulhá-lo com laços de som-e-significado e mundos mais de um milhão, à sua volta e dentro de si.
É como o poeta está. E tem de fazer qualquer coisa com esses materiais, com todos eles ou parte deles, conforme melhor lhe couber, na emoção ou na raiva, no sono ou no riso ou no gelo — e tem mesmo, porque a poesia é mais-que-assim, sem arrependimento nem morte nem fuga possível. A poesia é um coração de fazer mundo: não tem escolas nem professores, não tem poemas nem poetas nem leitores, a poesia não tem palavras nem doutores nem valores. A poesia faz amor. O próprio mundo, por incrível que pareça, é um acto de amor. No que tem de mais simples, essencial e genuíno, é poesia pura.

Disto-tudo é que depois me pus a pensar: se a poesia não tem escolas nem professores, nem poetas nem poemas nem leitores, então a poesia deve ser outra coisa qualquer por trás de tudo isso. Mas o que eu pensei mesmo foi: se a poesia é uma magia por detrás da poesia a que nós convencionámos chamar "a poesia", então pode ser que se condiga — que consigamos — chegar ao caroço a partir da casca, quer dizer, exactamente como se faz e se tem de fazer com um fruto. Assim devaneando, acrescentei-me ainda: se a poesia-como-nós-dizemos é difícil de ler e difícil de escrever, isso é tal-e-qual como se estivéssemos entre as margens de um rio, a pairar a pairar a pairar, e o rio passa no meio, lá em baixo, todo senhor-de-si, como o rei-vai-nu, e as margens não se podem encontrar, porque o rio não deixa, é um rio cheio de esquisitices de rei. Então, porque somos homens, e temos esta cabeça, é-nos lógico e lícito pensar que o melhor era construir uma ponte entre as duas margens do rio, de modo a aproximá-las ou mesmo a uni-las, e de modo a tornar os dois difíceis mais fáceis. Mas muito fáceis também não: é que eu não consigo acreditar completamente nessa facilidade toda do Ver e Ouvir: acredito muito mais que é preciso um pouco de difícil na vida, para que haja desafio e amanhã, e o amanhã não se torne no retomar do hoje, apenas renovado pelas roupas diferentes cantadas pela moda.

Comecei, portanto, a construir a ponte: fiz o escrever mais fácil, e o próprio ler logo se tornou mais fácil também. Mas há muito ler em todo o lado, e esse eu não o posso construir. Alguém terá que começar a erguer e a cimentar de plástico vivo esse pedaço da ponte que há-de vir da outra margem — da tua; da vossa — para a minha, ao encontro do meu próprio pedaço, de modo a que as margens, ou o que de melhor há nelas, se encontrem sobre o rio, e aí nós misturemos a poeira e o oiro de ambas as margens, no chão-da-ponte. É que a própria ponte terá de ser ultrapassada, porque o caroço espera-nos, e o caroço está para lá de qualquer ponte, embora comece a partir dela. Repito: o caroço espera-nos. E eu espero, também.

2005-04-06

CITAÇÕES



Nota introdutória:

Antes de ter tomado outra decisão, de carácter definitivo, tanto há milhares de anos atrás como por alturas da fixação dos primeiros cinco livros que apresentei no blog www.poesiatoda.blogspot.com , esses mesmos cinco livros tinham, aqui e ali, neste e naquele poemas, uma ou outra citação circunstancial, um ou outro frontispício situacional que depois, como é óbvio (pelo que aqui digo e pelo que no blog foi apresentado), eliminei.


Para repor a verdade dos factos, conforme me comprometi a fazer neste blog anexo, aqui ficam então as referidas citações, apontadas aos lugares onde onde originalmente as coloquei.



In AMOTINAÇÃO
(livro)

I am the Lizard King
I can do anything

James Douglas Morrison
THE CELEBRATION OF THE LIZARD


In OS POETAS DA MINHAS RUA
(poema)

O poeta vai na rua com a fralda de fora,
cabelos despenteados e olhar de malmequer.
Há séculos que não se vê um sorriso de criança,
cor de rosa e azul nas mãos aveludadas.

Vai na rua o poeta sem emprego certo nem pátria,
borboletas multicolores pousam-lhe na face.
Ele é de todo o mundo e o mundo é todo dele,
jasmins para sempre na ternura das manhãs.

Um dia, ó meu profeta, quando o mundo for melhor,
tu hás-de vir para a rua pintado de madressilva,
tu hásde vir para a rua cantando canções novas,
encantando os viandantes com sorrisos azuis e belos.

Vai, ó profeta, prossegue sempre na viagem,
sê anarquista até à raiz dos cabelos,
porque um dia hás-de morrer e os burgueses hão-de pôr-te
num compêndio moralista para os meninos de liceu.

Paulo Brito e Abreu
(e apresentava-o eu assim:
um dos poetas da tua rua)

In Madrugada 2, Edições M.E.N. (Movimento de Escritores Novos)
o poema Homenagem aos jovens poetas


In O DETECTIVE POÉTICO
(poema)

Visitei o Père Lachaise para procurar os restos
de Apollinaire
/.../ruas e tabuletas rochas e colinas e nome em todas as
casas

Allen Ginsberg
KADDISH AND OTHER POEMS
o poema At Apollinaire’s grave

/…/

Meto um diamante
Debaixo da língua
E tu
Podes ir à procura dele

Diane di Prima
MORE OR LESSE LOVE POEMS

/…/

— /.../ Eu olhei, a noite passada. Não pude conter-me.
— Eu sei — suspirou Ellery.
— Você também andou a averiguar?
/.../
Quando Ellery seguia o guarda, ao longo dos corredores cravejados de olhos, uma célula explodiu-lhe no cérebro com desmesurado clarão. Ellery chegou a parar, fazendo com que Planetsky se voltasse, olhando-o surpreendido. Mas logo sacudiu a cabeça e continuou a caminhar. Quase conseguira daquela vez — por adivinhação pura. Talvez na próxima vez...
/.../
Quem espreitasse para dentro do quarto ficaria perplexo. Ele não estava a fazer absolutamente nada perceptível aos olhos dos leigos, excepto consumir inúmeros cigarros. Deixava-se estar quieto na cadeira, junto da janela, contemplando o Céu primaveril, ou percorria o quarto, a passos largos, de cabeça baixa, soprando como uma locomotiva.
Olhando bem, via-se um monte de anotações em cima da escrivaninha — uma barafunda, pois os papéis estavam espalhados como folhas mortas no Outono. E, de facto, era o vento da sua cólera que assim os dispersara. Ali jaziam, rejeitados, escarninhos.

Ellery Queen
CALAMITY TOWN



In BREVE CARTA AOS POETAS MAL CRIADOS
seguida de COMO SE FAZ UM POEMA
(poema)

Os poetas acho que trabalham numa espécie de fita de montagem, com três longas listas, uma de substantivos como escrita, palavra, gesto, manhã, ventre, etc., outra de adjectivos como suspenso, transparente, absoluto, etc., e outra de verbos como arfar, prolongar, habitar, diluir, etc.; depois numeram as palavras e jogam os dados: saem coisas como prolongo a escrita suspensa, habito o gesto transparente da palavra, ventre habitado, absoluto, e isto dá para fabricar uma boa meia-dúzia por dia, e um pouco mais ao fim de semana.

Alberto Pimenta
BESTIÁRIO LUSITANO
O texto O diálogo do ratos



In ACTO DE FÉ OU FINGIMENTO
(poema)

Ao voltar, logo de manhã cedo, para a cidade, teve fome. E vendo uma figueira à beira do caminho, aproximou-Se, mas não encontrou senão folhas. Disse então: Nunca mais nascerá fruto de ti! E, naquele mesmo instante, secou a figueira. Vendo isto, os discípulos, admirados, disseram: “Como é que a figueira secou subitamente?” Jesus respondeu: “Em verdade vos digo: Se tiverde fé e não duvidardes, não só farei o que fiz a esta figueira, mas se disserdes a este monte: Tira-te daí e lança-te ao mar, assim acontecerá; e tudo quanto pedirdes com fé /.../ recebê-lo-eis”.

Evangelho segundo S. Mateus, 21

/.../

Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1:30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). /.../
Como escrevo em nome destes três?
Caeiro por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstrata, que sùbitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. /.../
O difícil para mim é escrever a prosa de Reis — ainda inédita — ou de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea, em verso.

Excertos de um
“Excerto de uma carta de Fernando Pessoa
dirigida a Adolfo Casais Monteiro,
sobre a origem dos seus heterónimos.
Publicada na revista “Presença”, nº 49, Junho, 1937”
citado em POESIAS de Álvaro de Campos, Edições Ática


In OLARIA
(poema)

As mãos moviam-se no barro e eram lestas e seguras. Começaram por o distender com as palmas, depois os dedos funcionaram como se estivessem consagrados a uma delicada renda de bilros. Lentamente, o barro adquiria formas.
/.../
— Porquê estes bichos?
— Sonho muitas vezes assim. Depois faço os sonhos no barro.
/.../
Num barro vermelho como o sangue, que se solidificava, crestava e desfazia — como o sangue da vida.
/.../
As coisas a mais são para encher os olhos, nada mais, senhor, nada mais.

Baptista-Bastos
AS PALAVRAS DOS OUTROS
a reportagem “Rosa e Júlia Ramalha: barristas”




[Nota/ curiosidade: no fim do poema OLARIA, inscrevi, assim:]

Amotinação! Amotinação! Amotinação!
Amotinação! Amotinação! Amotinação!
Amotinação!


In A SOLIDÃO
(poema)
Citação pessoal:
Canção de vidro
na estrada marginal



“Je suis d’un autre pays que le vôtre, d’un autre quartier, d’une autre solitude.
Je m’invente aujourd’hui des chemins de traverse.”
Les artistes sont tous des révoltés et des solitaires.
Gaugauin par exemple, et Van Gogh ô combien? Quand on pense à la solitude de Ravel... Terrible! Seul avec sa tumeur dans la tête. Ils on fini ensemble. Et Bartok, mort à New-York en 1945: des amis ont dû se cotiser pour pouvoir l’enterre. Villon aussi était seul avec l’ineffable Charles d’Orléans que était le Pompdou de l’époque. Et Balzac, avec sa solitude à la dimension de ce qu’il faisait. Ce n’est pas un hasard si Beethoven et Ravel on été sans femme, sans enfants. Il y a des gens coupes comme ça! Des oiseaux seuls, sans sexe, et par moments des sexes grands comme ça, et puis plus rien, et puis des anges, et puis des demons… La vie ne vaudrait pas la peine d’être vécue — en tous cas pour moi — s’il n’y avait pas cette souveraine lucidité sur les choses et puis ce besoin d’être traqué par quelque chose d’afefectif qui sente l’amour. Sinon, on se tue.
Leo Ferré
LA SOLITUDE
entretien avec Françoise Travelet
(extrait de Dialogue avec la solitude)


In AUTOCARRO 42
(poema)

Now it is autumn and the falling fruit
and the long journey towards oblivion.
/…/
And it is time to go, to bid farewell
to one’s own self, and find an exit
from the fallen self.

D. H. Lawrence

/…/

SENHOR PASSAGEIRO
EVITE O ACIDENTE

O motorista para conduzir a viatura necessita da concentração de todos os seus reflexos.

— Temos aos seu dispor postos de informações colocados ao longo de toda a nossa rede de exploração
Quando viajar de pé:
— Não ocupe a área reservada ao motorista e ao obliterador
— Segure-se aos balaustres e aos apoios do tecto
— Accione o sinal de paragem com antecedência

Aviso gentilmente afixado
nos autocarros da RN

O meu comentário:
(sublinhados em itálico
-mente atribuídos pelo autor,
ou:
“Sorria!”, Rádio Madeira, 1983)


In INTIMIDADE (electroencefalograma)
(poema)

Outrora, se bem estou lembrado, a minha vida era um festim em que todos os corações se abriam, em que todos os vinhos cintilavam.
Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos. — E vi que era amarga. — E injuriei-a.

Jean-Arthur Rimbaud
UNE SAISON EN ENFER


In UM POEMA DE AMOR USADO
(poema)

Diziam que o amor era cego, que era louco... que o amor não tinha coração, de forma que rasgava o nosso.

Joan D. Vinge
PSION


/.../

O amor é o que se passa entre dois seres que se amam.

Roger Vailland
DRÔLE DE JEU


In SE HOUVER LUTO NA MINHA MORTE
(poema)

Quando eu morrer não compliquem o mistério
com pios de coruja.
Nem me levem para o Cemitério
da Morte da Nuvem Suja.

Queimem-me, queimem-me numa pira
ao som do Sol Azul
para que ninguém simule
lágrimas de mentira.

Quem bom ver subir no ar
Nitidamente, a prumo,
Este charco a sonhar
Uma nuvem de fumo.

José Gomes Ferreira
ELÉCTRICO, LVII

/.../

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza....
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!

Mário de Sá-Carneiro
o poema Fim



O livro AS AMANTES DO CARNAVAL apresenta algumas idiossincracias curiosas. Assim, as “amantes” eram não mais que certas palavras (a par de certas influências “imagéticas”), e por isso defini, primeiro, uma listagem geral de palavras, e depois uma listagem por poema, com maior incidência nas influências paralelas, a saber:


“As Amantes”

areia, água, azul, sereia, coral, litoral, farol, ilha, tropical, lua, luar, céu, mar, maré, praia, sal, sol, vela, vento, viagem, espuma, tesouro, paisagem, abismo, concha, aventura, névoa, neblina —:

desrto, duna, oásis, serpente, cobra, guerra, sede, loucura, memória, mistério, palácio, tempo, nuvem, véu, sonho, silêncio —:

floresta, magia, chave, coração, combate, luz, sombra, feitiço, fé, fogueira, prado, neve, espada, porta, bruma —:

índio, montanha, casa, cascata, paz, pradaria, planície, liberdade, tabu, ritual, selva, virgem, raiz, seiva, liana, alma —:

carne, plástico, saliva, sangue, suor, seda ,sexo, fome, desejo, cama, chama, fogo, febre, beijo, penumbra, perfume, epiderme, segredo, sumo, sabor, amor, amante, ninfa, pérola, romance, lágrima, diamante, festa, prazer, paixão, orgasmo, pulsação, ausência, solidão —:

cidade, avenida, marginal, noite, manhã, chuva, cais, bar, cristal, vinho, veneno, veia, valsa, aço, riso, rua, revolução, metal, música, canção, carrocel, suicídio, cinza, estrada, espelho, jogo, jardim, imagem, dor, dança, crime, pó, silhueta, voz, nome —:

vida morte voragem:

E, por poemas (em que as referências são definidas como “materiais”):


PRAIA ou ARGÉLIA

amantes
Alix, Jaques Martin (BD)
Les Bêtises, Jacques Laurent (romance)
L’Atlantide, Pierre Benoit (romance)
L’Étranger, Albert Camus (romance)
Saara
Mediterrâneo
Costa da Caparica e Fonte da Telha
Argélia
(ilhas, praias desertas)



MAR ou ATLÂNTICO

amantes
navegações, litoral
Madeira, Açores — Atlântico de todas as cores

nomes como:
Jack London, Conrad, Salgari, Verne... Camões


FLORESTA ou EXCALIBUR

amantes
Excalibur, John Boorman (filme)
Merlin, Lancelote, Artur, Graal, Távola Redonda
Floresta Negra
lobos, mochos e serpentes
cavaleiros e jograis
Chevalier Ardent
, F. Craenhals (BD)
Thorgal, Rosinski/ Van Hamme (BD)
Bob Morane, William Vance (BD)
e certo filme já sem nome na minha memória, que vi na tv, numa tarde de sábado, há anos: mágico, brumoso, erótico; na praia, ele pediu-lhe que dissesse “serpente”, e a língua dela vacilou; então ele soube que ela era apenas mais um feitiço, nem serpente nem mulher, mas algo pior: a própria morte; tudo isso ficou para sempre nos segredos da minha cabeça; e agora também quero que digas — SERPENTE


SELVA ou AMAZÓNIA

amantes
A Selva
, Ferreira de Castro (romance)
Buddy Longway, Derib (BD)
Aguirre o aventureiro, W. Herzog (filme)


CARNE ou PLÁSTICO

amantes
uma relação amorosa



ANIMAIS NOCTURNOS ou DESLUMBRAMENTOS

amantes
a noite lisboeta
a Noite
sex, drugs and rock’n’roll
embriaguez
iniciação
Avenidas Marginais
Cais

(vi uma vez um vídeo, creio que de Michael Jackson/ Paul MacCartney: dois negros dançavam em silhueta, um frente ao outro — Ebony and Ivory?)


In ANJOS DEUSES POETAS MALDITOS
(livro)

there’s a devil in me
trying to show his face
there’s a god in me
wants to put me in my place

The Sound
FROM THE LION’S MOUTH


In “BREAK ON THROUGH TO THE OTHER SIDE”
(poema)

You know the day destroys the night
night divides the day
tried to run
tried to hide
break on through to the other side

Jim Morrison
BREAK ON THROUGH (to the other side)


/.../

Deus e o seu Filho jogavam juntos no seio do cosmo. Ele era o Pai em toda a sua perfeição e tinha um Filho perfeito. Claro que jogavam um jogo muito bom, que consiste em transformar macacos em deuses. O jogo só era excelente enquanto jogado segundo uma regra muito simples: os macacos não eram autorizados a saber fosse o que fosse a respeito dos deuses...

Donald Crowhurst


In FRAGMENTOS DO OLHO SAGRADO
(poema)

Espero Deus com glutonaria. Sou para todo o sempre raça inferior.
Eis-me na praia armoricana. Que as cidades cintilem ao anoitecer. A minha jornada está feita: deixo a Europa. O ar do oceano queimará meus pulmões; ignotos climas me bronzearão. Nadar, pisar erva, caçar, fumar, fumar muito; beber licores abrasivos como metal fundente — como faziam os nossos queridos antepassados em volta das fogueiras.
Regressarei, com nervos de ferro, a pele curtida, o olhar irado. Na minha máscara lerão os atributos das raças fortes. Terei ouro: serei indolente e brutal. As mulheres cuidam desses enfermos alucinados que voltam dos países quentes. Terei cadeira nos assuntos políticos. Salvo.
Agora sou um maldito, tenho horror à pátria. O melhor ainda é uma sesta bem bêbeda na praia.

Jean-Arthur Rimbaud
UNE SAISON EN ENFER


In (a hora de beber garrafas à Lua)
(poema)

“Por volta das onze chega a lua”, diz Baal.

Bertholt Brecht
BAAL


In PASSAGEM DA ESFINGE
(livro)

/.../ pensei que todas as gerações eram perdidas devido a qualquer coisa e que sempre o tinham sido.

Ernest Hemingway
PARIS É UMA FESTA


In CARTAGO ESTÁ A ARDER
(poema)

Citação pessoal:
Entre a meia-noite
e as quatro da manhã
Digo: oh sono ó sono oh o sono

Delenda Carthago
ou seja:
Cartago deve ser destruída,
segundo Catão, o Antigo


In A ESFINGE NÃO RI
(poema)

Antes do poema:

Contavam que, nos tempos de Édipo, uma esfinge, a meio caminho de Tebas, propunha enigmas aos viajantes e devorava quem não os adivinhasse. Propôs este a Édipo:

/.../

Depois do poema:

Qual é o animal que anda sobre quatro pés de manhã, sobre dois ao meio-dia e sobre três à noite? Édipo respondeu: “É o homem, pois se arrasta no chão quando infante, caminha erecto na idade adulta e, durante a velhice, anda encostado a um pau”. O monstro, furioso, precipitou-se no mar.


In ...E DEPOIS ACORDÁMOS
(poema)

Nota pessoal:
o Pedro, em Cacilhas, com cerveja,
com chatice de ouvir sempre as mesmas vagas histórias vãs


In BALADA DO HOMEM MORTO POR ACASO
AO SEVIÇO DA DEMOCRACIA
(poema)
Nota pessoal:
Não saber como — dizer Inferno
Não saber dizer Inferno
Não saber
como dizer
Não saber como dizer Inferno



In MERCADOR DE SONHOS
(poema)

— /.../ Às vezes falam dos seus sonhos, os curandeiros tentam usá-los nas suas curas, mas nenhum deles tem treino ou tem qualquer jeito para sonhar. Lyubov, que me ensinou, percebeu-me quando eu lhe mostrei como sonhar e, contudo, mesmo assim ele chamava ao tempo do mundo “real” e ao tempo do sonoh “irreal”, como se houvesse diferença entre eles.

Ursula K. Le Guin
FLORESTA É O NOME DO MUNDO



In MARATONA
(poema)

What makes Sammy run?
nome de livro

In HIENAS
(livro)

Quando Carlyle afirmou que “o homem é o único animal que ri” não fazia com isso uma mera constatação biológica. Biologicamente a hiena também ri. Fazia uma constatação psicológica e social. Seu erro era apenas admitir o riso como uma qualidade humana, quando é um defeito. O homem, da maneira porque vive, não tem do que rir. Porisso, à frase de Carlyle, deve-se acrescentar: “E é rindo que ele mostra o animal que é”. (1971)

Millôr Fernandes
LIVRO VERMELHO DOS PENSAMENTOS DE MILLÔR



In CANÇÃO DO PEDINTE (com coros e voz solista)
(poema)

Nota pessoal:
Ao cego dos Restauradores
numa tarde de primavera e
pombos com táxis namorados
e multidões poliglotas

In PÁRE ESCUTE E OLHE
um comboio pode esconder outro
(poema)

Nota pessoal:
(desconversa fiada) (conversa desconfiada)


In É NATAL É NATAL
(poema)

Antes do poema:

Deus protege os fracos e desamparados, mas um bom sindicato ajuda. (1966)

É necessário rever toda a história e tentar uma reavaliação dos seus heróis, mesmo os mais santos e místicos. Uma coisa para mim é certa: Cristo só expulsou os vendilhões do Templo porque eles não tinham licença e estavam prejudicando o comércio estabelecido. (1967)


Depois do poema:

Papai Noel, filho da exploração comercial, da ignorância infantil e da incapacidade de reacção paternal, é um velho meio idiota, meio malandro, extremamente desonesto, que se presta para servir de intermediário para o enriquecimento da sociedade de consumo, em todo o mundo. Um canalha. (1958)

Millôr Fernandes
LIVRO VERMELHO DOS PENSAMENTOS DE MILLÔR



In MONÓLOGO DO MICROFONE AKG
(poema)

Altifalam vozes
Nos salões nas ruas nas praças
Nos ouvidos nos túmulos
/.../
Altifalam palavras.
Hora de camaleões e altifalantes.

Mendes de Carvalho
CAMALEÕES & ALTIFALANTES
o poema Altifalantes

/.../

Com os olhos fechados a maior parte do tempo, ele cantou quase sem se mexer, as duas mãos no micro. E não dirigiu uma só palavra ao público.

Hervé Muller
MORRISON PARA LÁ DOS DOORS


In CHEGUEI ATRASADO à GUERRA
e agora o que é que eu faço
(poema)

A guerra é a grande experiência.

José de Almada Negreiros
ULTIMATUM FUTURISTA
ÀS GERAÇÕES PORTUGUESAS DO SÉCULO XX


In VIENA (Danúbio Azul)
(poema)

Well I could call out when the going gets tough
The things that we’ve learned are no longer enough
No language, just sound is all we need now
To synchronise love to the beat of the show
And we could dance
Dance, dance, dance, dance, dance to the radio

Ian Curtis/ Joy Division
TRANSMISSION



In 1984 (B.I.)
(poema)

Já não posso partir sem me partir
e assim partido aqui permanecer
/.../
Já nãa posso partir e no entanto parto
o copo de cristal onde bebe essa certeza

Manuel Alberto Valente
o poema Exílio (Fevereiro 74)


In A POESIA NÃO PRESTA
(poema)

O assunto Arte em Portugal, oficial e particularmente, tem a feição das coisas patuscas. Assim como cada aldeola tem o seu louco de aldeia, assim também parece natural que Portugal tenha os seus artistas.

José de Almada Negreiros
VISTAS DO SW

Nota final:

A minha decisão de eliminar as citações atrás expostas decorreu, numa primeira instância, do facto de me ter apercebido de que, se por um lado não tinha efectivamente ninguém a quem legitimamente dedicar o que escrevera, citar outros autores se poderia tornar um processo interminável, já que quase os autores são citáveis, de tal forma que aquele fragmento que alguém destaca (neste caso eu) muitas vezes é mais interessante que todo a restante escrita colocada à volta, antes e depois.

A segunda instância decorreu de uma constatação: não há livro de êxito que não tenha um “para a minha mulher Mary, que tanto amo e blábláblá” ou um “as armas e os barões assinalados” mais qualquer coisa de um qualquer obscuro poeta persa do século XVI, traduzido do original para o inglês, e do inglês para o português.

Não tenho nada contra o êxito. Desejo o meu próprio, como é evidente. Mas pareceu-me, nesse momento em que peguei na caneta das rasuras, que o meu caminho deveria ser outro. Talvez um dia faça um livro, uma colectânea de citações e dedicatórias, mas, para já, quero a minha escrita impoluta: quem lá deve estar já lá está. E isto sou eu. Quem não gostar, siga adiante. Quem gostar, que fique tanto tempo quanto lhe aprouver.

Frontispício de AMOTINAÇÃO

No começo do livro AMOTINAÇÃO — fantasmas de gerrilha e solidão, escrevi, ainda antes dos poemas, o texto que se segue:


AMOTINAÇÃO


Eu acredito na Amotinação. Não acredito em anarquistas, marxistas, capitalistas, ecologistas, futuristas ou fascistas, mas acredito na Amotinação. Por isso escrevo: AMOTINAÇÃO. E digo: AMOTINAÇÃO. E penso: AMOTINAÇÃO.

Não acredito na revolução, nem na de hoje nem na de amanhã, não sei de ninguém que esteja pronto ou preparado para ela. Uns estão este pedaço prontos, outros estão aquele, e o que é facto é que ninguém pode estar verdadeiramente preparado para a revolução, qualquer que ela seja, porque a revolução, no que tem de mais puro e profundo, não adnite cursos nem diplomas, cargos, credos ou deuses, a revolução é a própria vida. Por outro lado, não se pode retirar a cada pessoa os pedaços de preparação que cada uma delas já possui, ou é, e juntá-los numa outra, numa só pessoa, de modo a formar a pessoa completa, ou então pessoas completas, repetindo o processo até aos limites possíveis, porque a verdade é que as pessoas não se fundem, as pessoas não sabem o que é fundir. E, principalmente, porque a revolução somos nós, ou temos de sê-la, todos nós, embora haja gente que não quer a revolução, que quer destruir ou silenciar ou deturpar a revolução, gente que diz e faz tudo quanto pode contra ela, porque não sabe nem quer dizer a favor, e quem só diz contra sem dizer a favor não sabe nada disto, da vida, da morte, do mundo, dos homens e de tudo, porque o contra, por si só, sozinho, sem trajecto, projecto ou solução, é destrutivo, é estéril, é estúpido. Não consigo entender esses artistas que só dizem não. O artista é um criador, e ninguém cria apenas com um não. Sou contra o não. Sou a favor do não para logo depois o sim. É o sim que eu pretendo. O sim é como um sorriso. O sim é belo. O sim faz-nos belos, abre-nos o caminho em frente, faz-nos o casamento com o mundo e a magia e o sonho. Eu sou sim. Eu sou Amotinação.

Ninguém faz realmente a revolução, porque a revolução teria de ser completa, e como a revolução é vida, está na ordem natural das coisas que até mesmo as revoluções sejam hesitantes, plenas de travagens bruscas, acelerações brutais, avanços, interregnos e retrocessos, isto é, dinâmicas; isto é, incompletas. Por isso é fácil ver que a revolução é utopia, e cada um de nós pode ser a revolução, a sua própria e a dos outros. Acredito, sem dúvida, em revoluções, mas não acredito na revolução. Acredito na Amotinação, acredito que é necessário e fundamental revoltarmo-nos todos os dias e todos os instantes um pouco mais e um pouco melhor e tudo contra nós próprios e contra os outros, para ver se alguma vez chegamos a ser sinceramente um pouco melhores, de vez.

Eu gostava realmente de ser bom, bom no sentido de ser sem intenção, sem segundos objectivos nem trunfos na manga ou cartas marcadas, mas não vejo muitas hipóteses de êxito na minha mais suave pretensão, porque ninguém me deixa sê-lo, ninguém quer sê-lo para mim, toda a gente afirma e jura que o mundo é mesmo assim, um lugar onde não há lugar para os bons, se bem que eu saiba com toda a certeza que o mundo não é um lugar, nem lugares: o mundo é as pessoas.

Quando eu soube que Paris fora libertada da ocupação nazi, rejubilei, explodi em estrelas, senti uma vontade súbita de rir e chorar em um só tempo. Eu estava no café, com os rapazes e as raparigas snobs e os velhotes dos futebóis com copos de tinto; um mihão de bandeiras vermelhas-azuis-brancas com A Marselhesa mexiam os ares, as ondas do espaço, da loucura à loucura, e nada me podia envergonhar, eu estava com elas, com lágrimas e risos, era-as, absolutamente. E, todavia, nesse ano de quarenta e tal, eu ainda nem sequer havia nascido. É que um homem nasce sempre antes de nascer. Mas as pessoas não podem — ou não querem — compreender essas coisas. Dizem: ele chora, ou então: ele ri. Às vezes as pessoas estão mortas e nós não sabemos. É preciso saber.

Num dia destes eu estava quase embriagado, a matar o tempo, como um assassino profissional, talvez aborrecendo os outros, ou aborrecendo-os mesmo. Eu estava a ser delicado, como sempre, delicado até na minha “linguagem” para-escatológica, mas falava alto, ou muito alto, como às vezes gosto. A certa altura, os dois amigos meus que estavam comigo despediram-se (de mim) apressadamente, sem dúvida quando e porque eu dissera que estava a sofrer. O meu sofrimento, apenas dito, incomodou-os. E, contudo, eu estava ali a sofrer também por eles, a intensa e serena dor do desencanto, estava a sofrer por eles, por toda a nossa geração em todo o mundo e até por todo o mundo; pusera, num breve silêncio, em meia-dúzia de frases mais carregadas de cinzento, tudo aquilo que a euforia fabricada camuflara antes. E eles não puderam ou não quiseram compreender isso, nem compreender-me. E eu senti-me (ou fiquei) mais só.

Tu própria, tu, amor, que só a custo me entendes, entendes e sentes tudo isto: desprezamos ou outros e temos a compaixão lúcida e triste desse nosso desprezo; só duma indecisão tão maldita poderia brotar este comportamento onde morre a paz e se procura o amor. Porque não pode haver paz sem amor, nem música sem silêncio, nem futuro sem Amotinação. Acredito na Amotinação como podia acreditar em marcianos ou em fadas. Acredito porque quero, e é a isso que chamo fé. Querer é muito. Querer é crer. E penso, e digo, e escrevo, e sou: hoje sim, amanhã não sei. Amotinação.

2005-04-05

Finale de OS POETAS DA MINHA RUA

No fim do poema OS POETAS DA MINHA RUA, escrevi ainda:


este ano (1982) a minha rua é pacata reformada imitativa e sombria. os poetas cruzam os braços sobre o ventre dilatado com cerveja choca e falam falam falam coçando os maxilares mecânicos e mal articulados e os testículos e a caspa:
resta-nos fazer o que a outra verdade sempre obriga.

eu desisti admite um deles. desisto sempre há quem diga. e mais cerveja tomba em canecas cheias sobre a mesa hip hip à saúde.
o egoísmo é um estilo de vida afirma outro. e acrescenta: nada mais fácil que a moral do cínico.
cheira-me a um certo cansaço incerto cansaço velho não me cheira a suor a luz a riso não me cheira a nada realmente nem sequer digo traição.
o faquir morreu o ladrão de automóveis está a apodrecer na prisão as concubinas do caos amamentam filhos sem nome nos seios flácidos e no mau bâton e os presumíveis donos das palavras têm inesperadas erupções entusiásticas álcoois delírios predestinados ao silêncio-vexame dos desiludidos que regressam de boca cheia d’ar e à dança canibal dos caranguejos.
digo: .
fé?, pergunta s. tomé pergunta o eco pergunta a sombra como se eu trouxesse aos ombros a cruz de mais uma religião sem deus vivo nem futuro.
sem sabor riem o seu riso de revogação.
o mundo digo eu então para mais tarde não tem sentido ou tem o que nós lhe quisermos dar. a realidade outra coisa não é senão a nossa capacidade de dar verosimilhança às ilusões em que acreditamos. o mundo existe por um esforço de fé.
fé?, ecoa ainda a pergunta retoricamente como se as sombras replicassem com um gás infinitamente mais hilariante e um santo infinitamente mais céptico. resta-me portanto prosseguir com outro riso:
vivemos num grande deserto mas ninguém se suicida realmente enquanto não tiver perdido todos os sonhos. a vida é precisamente essa escaramuça dialéctica em que se pretende dar corpo à ilusão pelo trabalho convertendo os sonhos em actos e os actos em construções de corpo alma e argamassa de pão. Essas vidas que tanto admiramos que achamos tão reais e convictas são aquelas que lograram tornar a aparência sólida e palpável. Esta situação é clara para mim e tornou-se o meu ponto de partida.
mas sabe-se lá para onde
contrapõe à laia de mau agoiro uma alma morta ainda e sempre lembrada do gosto de negar e contestar e ousar gosto velho e vão.


E então começo a dizer, como se pensasse em voz alta:

Este ano
Os poetas da minha rua
Acabam de atingir a idade adulta
E já estão velhos.

Mas detenho-me: ao olhar em redor, encontro-me sozinho.

É quase sempre um homem só que faz o caminho.

2005-03-03

VERSOS ESCONDIDOS

Enquanto colocava os poemas no blog, deixei de fora, intencionalmente, alguns breves versos/poemas que serviam de entrada ou frontispício a um ou outro livro, dado que, na organização de um blog, a colocação desses fragmentos poéticos introdutórios perde/ria algum do seu sentido, digamos, "espacial".

No caso dos poemas com intros líricos (por exemplo, OS POETAS DA MINHA RUA, O DETECTIVE POÉTICO, BREVE CARTA AOS POETAS MALCRIADOS, NOSTALGIA ou VOCÊ TEM UMA MENSAGEM) esse sentido não se perdia (ao intro seguia-se de imediato o respectivo poema), de onde resultou a opção de os colocar no local que lhes destinara.

Aproveito então a oportunidade de aqui apresentar, em primeira mão, essas entrada poéticas, com referência explícita do local onde devem ser "lidos", dentro da lógica da organização do blog POESIA TODA por livros.


In BOM DIA, VOU ACORDAR (novas canções portuguesas), na parte BIG BEAT, antes do poema FRENÉTICO:

bem vindos à europa
esta é a tropa do meu sentir
este é o mundo velho a erguer-se
sobre os restos de um mundo a cair
bem vindos meus amigos ao futuro
do novo muro que vamos construir



In BOM DIA, VOU ACORDAR (novas canções portuguesas), na parte MAILING, antes do poema CARTA A UMA CONHECIDA QUE SE SUICIDOU:

conheço dez vendidos
dez que são covardes
conheço dez traidores
dez que são bandidos
dez que são roubados
dez que são caçados
conheço dez esquecidos
...


In BOM DIA, VOU ACORDAR (novas canções portuguesas), na parte NOVAS CANÇÕES PORTUGUESAS, na parte a) Cover, antes do poema HOSPITAL:

tantas vezes fui traído mas aqui estou
traído por mim também assim sou
o tempo foi-me lento mas passou
o que dei não foi dado eu nada dou
hoje nada sinto sinto muito aqui vou



In BOM DIA, VOU ACORDAR novas canções portuguesas, na parte NOVAS CANÇÕES PORTUGUESAS, na parte b) LP, antes do poema CANÇÃO NOVA DE MAIO:

Almíscar —
um odor
tão intenso
como o mais suave sabor.
Dores inúteis,
jogos de raciocínio
em que tudo é possível,
excepto as regras intocáveis
— excepto o acaso.
Se eu pudesse
desenhar-te
em tranquilidade —
simplesmente amar-te,
mesmo sem ser verdade...


Capa de CONTOÁRIO CEM


Capa de LA DOLCE VITA


Capa de POEMAS DA RECONSTRUÇÃO


Capa de PENSAMENTOS DO GUERREIRO NO CORAÇÃO DO DESERTO

2005-03-01

DA OBRA

Primeiro hesito: obra? Não soará pretensioso? Sê-lo-á, sem dúvida, mas analiso a listagem dos livros que já escrevi, dos que estou a escrever, dos que estão somente planeados e que ainda só tem a primeira página escrita, ou tão só algumas linhas, e chego a esta conclusão: mesmo que editasse quatro livros por ano (um por trimestre), quinze anos não chegariam para esvaziar a gaveta que me calhou. É obra. Por isso, que se lixe ao que soa. Opus são e o tempo me dará o discernimento bastante para mandar para o lixo metade de tanto escrito, se tal for o caso.

De todo este material, só uma ínfima parte se encontra editada, e de seguida aqui dou nota do que já é livro, mesmo que pouco significado tenha obtido no mundo das letras, nacional ou outro. Eis então a referência, para que conste:

PENSAMENTOS DO GUERREIRO NO CORAÇÃO DO DESERTO (uma iniciação)
Prémio de texto no concurso "O Teatro na Década", edição de 1991, promovido pelo Clube Português de Artes e Ideias (CPAI)
Edição: CPAI
Junho de 1993
300 exemplares
68 páginas
Depósito Legal:67071/93
ISBN: 972-957445-0-2

LA DOLCE VITA-narrativa ao redor de um fim-de-semana suburbano
Edição: Editorial Escritor, Lda.
Setembro de 1995
Tiragem numerada (1000 exemplares)
144 páginas
Depósito Legal: 92336/95
ISBN: 972-9484-83-X

POEMAS DA RECONSTRUÇÃO
Menção honrosa na categoria de texto do concurso "O Teatro na Década", edição de 1996
Edição: CPAI
Abril de 1996
300 exemplares
44 páginas
Depósito Legal: 99744/96
ISBN: 972-95745-2-9

Participação, com um conto (Z, K E OS OUTROS), na colectânea CONTOÁRIO CEM, edição Nº 100 da Editorial Escritor, Lda.
Maio de 1996
Tiragem numerada (? exemplares)
Páginas do conto: 7
Depósito Legal: 104225/96
ISBN: 972-8334-0-5-2

Destes quatro trabalhos, só um é de poesia (ou de prosa a sonhar poesia), e por isso as outras três edições (das quais uma, de facto, não é de um trabalho meu, mas apenas inclui um conto, conforme atrás referido) ficam aqui apontadas apenas nessa perspectiva: como apontamentos factuais, sinais de existência.

Haverá a assinalar, enfim, o facto de ter sido vencedor, em 2002, e entre os 89 trabalhos apresentados, do 14º Prémio Literário "Cidade de Almada", com o romance O OURO, ainda inédito.

2005-02-28

DO TRABALHO

Escrever dá trabalho? É trabalho? É profissão? Acho que não. Escrever não custa nada. Escrever é um gozo. Se a frase soa mal, risca-se. Escreve-se outra. A inspiração não existe. Não tenho qualquer angústia perante a página em branco.

Já gostei mais de escrever. Quer dizer, do acto físico de escrever. Hoje em dia apetecia-me mais ditar, para alguém escrever por mim. Ou para uma máquina, que depois transformasse os sons em palavras escritas. Acho que já há programas de computador que fazem isso. Podia então andar às voltas ao mundo, a escrever no ar três livros ao mesmo tempo, que é como eu gosto, nesta história choro, naquela rio, na outra invento paisagens ou personagens que nunca hão-de achar equivalente na vida real.

Não gosto de escrever em casa: a televisão distrai-me, a rádio distrai-me, a própria casa me distrai. Escrevo em cafés, vejo pessoas a passar, a entrar e a sair, o barulho das chávenas e dos copos e das vozes cria uma espécie de invólucro transparente à minha volta e a escrita flui como mel da minha caneta. Escrevo sempre com caneta. De tinta permanente. Barata (nunca mais ganho a rifa da Montblanc). Fumo as minhas cigarrilhas e o seu cheiro forte incomoda os velhos, que tossem desalmadamente, e as senhoras que bebem o seu chá, com o cabelo muito arranjado e as unhas muito bem pintadas, as senhoras que me dirigem olhares de assustadora censura (ai se o olhar matasse) mas que não me distraem do que estou a escrever.

Os poemas saem como a soda de um sifão, doidos de pressa, às vezes aos dez de cada vez. Ultimamente não os deixo sair. Ando a pensar os livros antes de os escrever. Não me apetece passar as tardes num café, não escrevo, somente penso os livros. Acho que estou à espera que passe o frio. Ou talvez haja cada vez mais pessoas feias, e pessoas cada vez mais feias, e a minha bolha de isolamento afinal já não seja assim tão boa, agora as conversas alheias entram na caneta e esborratam-me a escrita.

Escrever cansa: já sabemos como vai ser, as palavras tomam conta de tudo e apetece ir logo para o fim, eles casam e não importa se são felizes ou não, ora aí está, mais uma história que bem poderia nem ter começado. Dou comigo a pensar: se não sair obra-prima, só pode ser vaidade. Para quê escrevê-la, então? Estraga-se papel, derrubam-se florestas inteiras para alimentar essa vaidade. Livros inúteis, páginas vazias. Escrever é pensar. Está dito.

2005-02-24

DO AUTOR

Tenho 43 anos. Quase 44.
Li o primeiro romance aos 9, mas não era um clássico. Agora já é. Assinava-o a Enid Blyton.
Comecei a escrever aos 13.
Aos 21, incapaz de organizar o que escrevia, rasguei tudo.
Senti-me livre e angustiado de uma forma sem igual.
Recomecei.
Escrevo poemas mas não sou poeta, sou um mero aprendiz.
Escrevo contos e romances e acredito que os escrevo bem.
Às vezes deixo que algum lirismo me entre na prosa, e nesse equilíbrio me satisfaço.
Trato-me mal, bebo, fumo, provavelmente não viverei até à idade da reforma.
Mas gostava de chegar lá, ao poema derradeiro, a um de que pudesse dizer: este sou eu.